Intenção é cortar a linha de outros praticantes, mas os danos vão de prejuízos à rede elétrica até morte de pedestres e motociclistas


Durante as férias, as crianças aproveitam o tempo livre para brincar. Soltar pipa é uma das brincadeiras mais antigas e populares. A atividade une amigos e família. “Uma das minhas brincadeiras preferidas de quando eu era criança era empinar pipa, agora eu aproveito para aproveitar o tempo e fazer junto com o meu filho”, explica o motorista, Belmiro da Silva.

Divertida e por gerações, o problema é quando ela se torna perigosa. O uso do cerol continua frequente apesar dos perigos que apresenta. Usado para tornar a brincadeira mais competitiva, o pesquisador Hamilton Lelis Ito, do Laboratório de Corrosão e Proteção do IPT, explica que “a técnica consiste em envolver a linha da pipa em cola e, posteriormente, vidro moído”.

A intenção é cortar a linha de jogadores próximos, mas os danos causados pela prática vão de prejuízos à rede elétrica até morte de transeuntes. Se para quem empina a pipa o único perigo que o cerol apresenta é o de pequenos ferimentos, para pedestres e motociclistas o risco é muito maior, muitas vezes levando à morte.

O pesquisador estudou um aspecto nocivo e potencialmente fatal da prática: o prejuízo a fios da rede elétrica e os riscos à população. O mote para a análise foi o caso ocorrido em 2009, quando um transeunte morreu eletrocutado por um cabo que se partiu e caiu em consequência do atrito com uma linha com cerol, no município de São Paulo.

Um pedaço do cabo foi enviado ao IPT para análise de falha e, após a constatação de restos de rabiolas de pipa presos ao objeto e cortes nos arames que o constituíam, a equipe do laboratório concluiu que o rompimento havia acontecido em função do atrito de linha com cerol. O pedestre esbarrou no cabo caído e faleceu eletrocutado.

O pesquisador chama atenção para a necessidade de reforçar campanhas de conscientização. “A criança ou adulto que brinca descobre rapidamente que não leva choque enquanto segura uma linha de cerol encostada a um cabo condutor de eletricidade, mas não se pode esquecer do perigo para outras pessoas”, enfatiza.

Especialmente porque, aos primeiros atritos com o cerol, o cabo pode não romper-se imediatamente, como explica Lelis Ito: “muitas vezes, o dano causado pelo atrito pode não ser suficiente para cortar o cabo, mas o torna menos resistente. Chuvas, ventos e outras circunstâncias a que normalmente o material resistiria podem ser suficientes para derrubar os cabos e causar acidentes”.

Há outros prejuízos menos graves que mortes, mas que, segundo o pesquisador, devem ser lembrados. O rompimento de fios interrompe a transmissão de energia, e pode causar apagões na região abastecida por aquela rede. Além do transtorno à população daquela área e à companhia de distribuição de eletricidade – que terá de repor os cabos -, a escuridão pode tornar estes ambientes menos seguros e propensos a atos de violência.

Algumas soluções para o problema propostas pelo pesquisador são a construção de dutos e galerias para fios subterrâneos e, principalmente, a intensificação de campanhas públicas. A inviabilidade de aplicar a primeira opção a curto prazo para a maioria das grandes cidades, já construídas e que crescem sem planejamento, só aumenta a necessidade da segunda.

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