Durante 43 anos, Eliana Zagui viu o mundo através da janela do quarto onde vivia, no Hospital das Clínicas de São Paulo. Deitada na cama, sua visão se resumia à copa da árvore em frente ao hospital e às janelas de edifícios vizinhos. Ali ela viveu a infância, adolescência, juventude e parte da vida adulta até que no início deste mês decidiu dar um novo rumo à sua vida. Após mais de quatro décadas vivendo no hospital, ela decidiu se juntar ao mundo do lado de fora e após visita à casa de um amigo em Sumaré, foi acolhida por ele e não quis mais voltar para São Paulo. Na terça-feira, dia 22, Eliana completou um mês longe do hospital. “Estou vivendo meu sonho. Aqui me sinto incluída no mundo”.

Eliana foi vítima de paralisia infantil. Ela teve a doença com apenas 1 ano e nove meses. Na época já existia a vacina contra a poliomielite, mas Eliana estava com febre e dor na garganta e não quiseram lhe aplicar a dose. Sem proteção, contraiu o vírus. Foi levada ao Hospital das Clínicas pelos pais e de lá nunca mais saiu. O prognóstico inicial de apenas oito meses de vida falhou. Eliana sobreviveu, mas com sequelas graves da doença. Ela mexe apenas o pescoço e não consegue sentar. Fez traqueostomia ainda criança, depois que o respirador mecânico, conhecido na época como pulmão de ação, não conseguiu restabelecer sua respiração. Desde então, respira com a ajuda de um respirador artificial.

Foto: João Carlos Nascimento – O Liberal
Eliana completou um mês fora do hospital e afirma que está “vivendo seu sonho”

Com menos de dois anos de vida e exigindo muitos cuidados, a então menina foi mantida no hospital. Os pais não tinham condições de levá-la para casa e a visitavam apenas em datas especiais: aniversário e Natal. Eliana passou a viver ali junto a outras seis crianças, todas vítimas da poliomielite. “A equipe do hospital foi minha família e as outras crianças meus amigos”. Dos sete iniciais, apenas Eliana e Paulo (a quem ela chama de irmão) sobreviveram. “Toda vez que morria um eu pensava que seria a próxima”.

Não foi e aos 15 anos saiu do hospital pela primeira vez e viu como era o mundo sem paredes. Eliana foi passear na casa de uma amiga do hospital. Foi uma voluntária da capelania evangélica que a levou para passar um dia com sua família. “Me surpreendi. Consegui ver do chão ao céu. Pude ver a árvore inteira e os edifícios. Essa amiga tinha filhos e pela primeira vez conheci crianças que podiam brincar de verdade”. Foi no passeio que ela também conheceu alguns animais: cachorro, coelho e papagaio. “Foi uma experiência única”, diz.

Depois do primeiro passeio, Eliana teve a chance de sair outras vezes do hospital. Eram passeios que demoravam para acontecer, já que seu deslocamento exige planejamento e logística. O final de todos eles era sempre o mesmo. “Eu voltava para o hospital arrasada, muitas vezes chorando. Não queria ter que voltar”.

Segundo ela, esses passeios lhe propiciaram ver o mundo sob outra perspectiva e a cada nova pessoa ou local que conhecia, crescia a vontade de não viver mais dentro do hospital. O desejo começou a caminhar para a realidade quando ela conheceu Lucas Negrini através da Internet. Ficaram amigos, ele a convidou para viver em sua casa e juntos começaram a planejar a mudança.

Até decidir ficar de vez na casa dele em Sumaré, foram quatro visitas. Na última tomou a decisão de não voltar mais ao hospital. “Decidi testar minha capacidade de lidar com o mundo”. Eliane chegou em Sumaré no dia 22 de dezembro. Deveria ter voltado ao hospital no dia 15 de janeiro. Ao invés disso, escreveu um e-mail e comunicou o desejo de ficar. “Eles respeitaram minha decisão”.

O hospital permitiu também que ela continuasse a utilizar o respirador artificial da instituição. Durante o dia ela tem a ajuda de uma enfermeira. Doações e o apoio de empresários que se solidarizaram com a sua história ajudam a manter a estrutura que lhe dá suporte. “Tudo tem seu preço. As coisas não são fáceis, mas tem que fazer por merecer, tem que correr atrás. Estou feliz aqui”.

Foto: Arquivo Pessoal
Eliana, quando criança: ela foi internada com 1 ano e 9 meses após ser vítima de paralisia infantil

Eliana Zagui é artista plástica. Aos 8 anos aprendeu a pintar usando a boca. A pintura era uma das atividades feitas com as crianças no hospital. Lá ela também aprendeu a ler e a escrever (também usando a boca). É autora da própria biografia e em 2012 lançou o livro “Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital do Brasil”. Ativa na Internet – está nas redes sociais –, se comunica com os amigos usando o celular. O aparelho fica fixo no suporte próximo ao rosto e com uma caneta na boca ela acessa as teclas.

Religiosa, credita a Deus a força que a faz seguir em frente. “Tive meus momentos de desespero. Sou humana, mas gosto de manter minha fé. Preciso desse suporte”. Eliana é sorridente, gosta de fotos – fez questão de ser fotografada com a reportagem – e tem planos para o futuro. No dia 23 de março, ela completa 45 anos. O sonho de viver fora do hospital, ela já realizou. Mas ainda tem outros. Nos seus projetos, está uma faculdade de psicologia e uma viagem ao sul do Brasil.

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